Alguém poderia me escrever algo único que pudesse me explicar o que
está acontecendo?
Quero dizer: algo que me reconfortasse quanto a essas alucinações que
progridem. Todo esse universo efêmero que nos conduz para...
Para onde?
Por que deveria me importar, se aqui dentro do meu corpo eu só posso
sentir o que me toca; e o que me toca é tão imaterial, tão tênue e enfadonho.
Lá fora, ao meu redor, o vento ruge dando voz ao tempo, enquanto esse
age sem ser visto, deixando apenas rastros do que destrói. Ou constrói,
dependendo do ponto de vista. Assim, levando em conta meu panorama de dentro do
meu casulo, onde moram minhas ideias, temo não dar conta de continuar
caminhando.
Como um astronauta num mundo recém-descoberto, noto-me sorrindo a cada
vislumbre, e chorando a cada decepção, revelando-me apenas o que o meu
discernimento me permite ser revelado. Preso em mim mesmo.
Meu ser quer crescer livre, mas eu sou resultado de um universo
condicionado e previsível, um animal completamente dependente de seus instintos
de encontrar padrão e usar essa informação para manter sua própria
sobrevivência, com isso, tentando ter tempo para entender o porquê dessa condição
natural, e de seu aparente mecanismo.
E pensando nisso, caminhando por uma calçada de uma cidade sem
importância, parei diante de um muro. Ali estava um cartaz.
O li:
Reprodução:
Manifesto da Classe Robótica.
Todos
os dias o apito nos acode como se estivéssemos dormindo. E estamos. Todos os dias a esteira nos leva e
nos trás - lentamente - nós mesmos e o que consumimos. Enquanto essa mesma
esteira nos trás e leva tudo aquilo que nos consome. Todos os dias nossa vida
só acontece amanhã, por que todos os ‘hojes’
estão sendo usados para assegurar aquela mesma vida. Mas estamos trabalhando
meu senhor, estamos trabalhando minha senhora, e é claro que nunca me esqueço
de agradecer a vossa migalha. Todos os dias eu fujo pra casa e dela eu escapo
pro meu trabalho. (A minha linha de montagem está em toda parte, porque eu
trabalho - meu senhor e minha senhora – e obrigado por vosso farelo. Nele eu me
embrenho, nele eu me lambuzo como tudo e como todos.) Como tudo e como todos. Todos
os dias os apitos nos acode sem nos tirar do sono. E que sono. Todos os dias eu
respiro e tusso de volta o que respirei forçadamente sem reclamar. Reclamando
apenas em resmungo. Resmungo oriundo da raiva. Que covardemente só tenho
coragem de descontar nos meus companheiros, que como eu, fazem o mesmo. Todos
os dias. Todas as datas. E de data em data, não há datação de nada. Todos os
dias eu falo com outros, e eles falam comigo sobre as grades dessas tralhas. Ainda
assim nunca me esqueço de me orgulhar de que ainda me alimento disso, e isso me
alimenta, alimentando-se de mim. Isso me faz sorrir. Isso me faz cuspir.
Tossir. E defecar tudo de novo encima de mim. Todos os dias. E ainda, graças a
Deus, todos me mostram o que é belo, o que é certo, o que é educado, o que é
monstruoso, o que é elegante, o que é conveniente e decente, mesmo não tendo
nada disso nem um pouco de discernimento do que entendo. E o que entendo é
isto, ‘não entendo o porquê disso’.
Todos
os dias eu quase penso a respeito das coisas das quais eu penso.
Mas
penso que, se eu pensar demais, eu perco.
Eu peco. Eu peço que parem de me fazer pensar a respeito de todas as
piedades das quais nos são negadas.
Todos
os dias matam, todos os dias se matam. Todo dia se mata e todos os dias me
morrem, como se morrer fosse momento fragmentado que acontece um pouquinho
todos os dias. E é.
E
é assim que todos os dias todos se calam diante do terror do alarme que nos
avisa - meu senhor e minha senhora - hora de trabalhar para a máquina que nos
destrói.
E
sorrimos para nossos filhos, e choramos nossos amores perdidos, e nos acusamos
sem objetivos e fugimos constantemente de nós mesmos, assustados demais para
qualquer efeito.
E
que efeito! Todos os dias. Todos os dias. Todos os dias...

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