segunda-feira, 7 de setembro de 2015

005

Alguém poderia me escrever algo único que pudesse me explicar o que está acontecendo?
Quero dizer: algo que me reconfortasse quanto a essas alucinações que progridem. Todo esse universo efêmero que nos conduz para...
Para onde?
Por que deveria me importar, se aqui dentro do meu corpo eu só posso sentir o que me toca; e o que me toca é tão imaterial, tão tênue e enfadonho.
Lá fora, ao meu redor, o vento ruge dando voz ao tempo, enquanto esse age sem ser visto, deixando apenas rastros do que destrói. Ou constrói, dependendo do ponto de vista. Assim, levando em conta meu panorama de dentro do meu casulo, onde moram minhas ideias, temo não dar conta de continuar caminhando.
Como um astronauta num mundo recém-descoberto, noto-me sorrindo a cada vislumbre, e chorando a cada decepção, revelando-me apenas o que o meu discernimento me permite ser revelado. Preso em mim mesmo.
Meu ser quer crescer livre, mas eu sou resultado de um universo condicionado e previsível, um animal completamente dependente de seus instintos de encontrar padrão e usar essa informação para manter sua própria sobrevivência, com isso, tentando ter tempo para entender o porquê dessa condição natural, e de seu aparente mecanismo.
E pensando nisso, caminhando por uma calçada de uma cidade sem importância, parei diante de um muro. Ali estava um cartaz.
O li:


Reprodução:


Manifesto da Classe Robótica.
Todos os dias o apito nos acode como se estivéssemos dormindo.  E estamos. Todos os dias a esteira nos leva e nos trás - lentamente - nós mesmos e o que consumimos. Enquanto essa mesma esteira nos trás e leva tudo aquilo que nos consome. Todos os dias nossa vida só acontece amanhã, por que todos os ‘hojes’ estão sendo usados para assegurar aquela mesma vida. Mas estamos trabalhando meu senhor, estamos trabalhando minha senhora, e é claro que nunca me esqueço de agradecer a vossa migalha. Todos os dias eu fujo pra casa e dela eu escapo pro meu trabalho. (A minha linha de montagem está em toda parte, porque eu trabalho - meu senhor e minha senhora – e obrigado por vosso farelo. Nele eu me embrenho, nele eu me lambuzo como tudo e como todos.) Como tudo e como todos. Todos os dias os apitos nos acode sem nos tirar do sono. E que sono. Todos os dias eu respiro e tusso de volta o que respirei forçadamente sem reclamar. Reclamando apenas em resmungo. Resmungo oriundo da raiva. Que covardemente só tenho coragem de descontar nos meus companheiros, que como eu, fazem o mesmo. Todos os dias. Todas as datas. E de data em data, não há datação de nada. Todos os dias eu falo com outros, e eles falam comigo sobre as grades dessas tralhas. Ainda assim nunca me esqueço de me orgulhar de que ainda me alimento disso, e isso me alimenta, alimentando-se de mim. Isso me faz sorrir. Isso me faz cuspir. Tossir. E defecar tudo de novo encima de mim. Todos os dias. E ainda, graças a Deus, todos me mostram o que é belo, o que é certo, o que é educado, o que é monstruoso, o que é elegante, o que é conveniente e decente, mesmo não tendo nada disso nem um pouco de discernimento do que entendo. E o que entendo é isto, ‘não entendo o porquê disso’.
Todos os dias eu quase penso a respeito das coisas das quais eu penso.
Mas penso que, se eu pensar demais, eu perco. Eu peco. Eu peço que parem de me fazer pensar a respeito de todas as piedades das quais nos são negadas.
Todos os dias matam, todos os dias se matam. Todo dia se mata e todos os dias me morrem, como se morrer fosse momento fragmentado que acontece um pouquinho todos os dias. E é.
E é assim que todos os dias todos se calam diante do terror do alarme que nos avisa - meu senhor e minha senhora - hora de trabalhar para a máquina que nos destrói.
E sorrimos para nossos filhos, e choramos nossos amores perdidos, e nos acusamos sem objetivos e fugimos constantemente de nós mesmos, assustados demais para qualquer efeito.
E que efeito! Todos os dias. Todos os dias. Todos os dias...



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